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The International School for Holocaust Studies

Guião de análise do filme-documentário
"Que a tua lembrança seja amor - A História de Ovadia Baruch"


Destinatários: Alunos do Ensino Secundário

A) Objetivos do Projecto

A particularidade da travessia autobiográfica:

"Em alguns anos, quando nós os sobreviventes já cá não estivermos, os alunos que um dia connosco estiveram poderão dizer: “Eu ouvi da boca de Jana e de outros aquilo que lhes aconteceu em Auschwitz, eles estiveram lá e contaram-me”. Com estas palavras concluiu Jana Bar Yesha, sobrevivente do campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau e educadora, o filme que fizemos em sua honra.
O nome do filme, Ela esteve ali e contou-me, é parte deste projecto educativo dentro do qual procuramos preservar a voz dos sobreviventes também para um dia em que eles já não estarão connosco.
O filme de Jana Bar Yesha, como o resto dos filmes que se realizaram dentro deste quadro, não é um filme testemunhal "comum". A particularidade dos filmes dentro deste projecto é que constituem uma viagem autobiográfica e educativa das testemunhas, através dos quais as testemunhas regressam ao local da sua infância e àquilo que era a sua vida antes da Shoá. A travessia continua nos locais centrais onde elas passaram os horrores da Shoá, e termina nos locais onde encontraram, depois da destruição, as forças especiais que dentro delas lhes permitiram voltar a viver. Isto adequa-se à Filosofía Educativa de Yad Vashem.
A perspectiva do enfoque educativo da Escola Internacional para o Estudo do Holocausto em Yad Vashem assenta no princípio segundo o qual, quando pretendemos ensinar a história da vítima judía na Shoá,temos de apresentar perante o aluno o ser humano com rosto e identidade, ser humano a quem os nazis trataram de apagar a sua particularidade humana. A partir das cinzas e da perda imcompreensível, temos de fazer finca-pé nos rostos do homem e na imagem da família e comunidade que se perdeu durante a Shoá.
O nosso objectivo é duplo:
a) Devolver aos seres humanos os seus nomes e rostos, e assim acabar de frustrar o objetivo dos nazis que era apagá-los a eles e à sua memória.
b) Conhecer o que perdemos para poder recordar.

Estas viagens de estudo, que se fizeram de acordo com a Filosofia Educativa, deram origem a um duplo testemunho - o testemunho filmado deu um Olhar sobre o relato da testemunha, mas também sobre o lugar geográfico onde se passou a sua viagem. A interacção entre eles criou um encontro especial - encontro entre a testemunha e o local frente à câmara. Um encontro que sai da regra e que trouxe momentos únicos e emotivos. As testemunhas experimentaram, de novo, os momentos importantes das suas vidas. Voltaram aos seus locais de origem. Encontraram-se, de novo, com os pátios, os campos de jogos e as casas onde costumavam brincar. Voltaram e encontraram de novo a casa da sua família, amigos e vizinhos.
Cheiraram os aromas e escutaram os sons. Estas experiências multisensoriais despertaram novamente neles diversos sentimentos. As filmagens e o dar testemunho nos mesmos locais proporcionou-lhes um panorama único de grande valor. Um deles, por exemplo, aconteceu durante o testemunho de Maka Rosenthal, que falou, pela primeira vez em público e de frente para os olhos da câmara, sobre o assassinato do seu irmão bebé, Kopale.
Neste sentido, tratamos de conservar para as gerações vindouras a memória da Shoá de maneira viva, e permitimos aos espectadores dos filmes uma experiência educativa e emotiva de grande significado

"Testemunhas e educação" como um projecto educativo especial

Muitas vezes, verificamos que o relato do testemunho se realiza numa ordem cronológica e segundo as definições do entrevistador ou historiador. Como consequência, cria-se por vezes uma situação em que parte dos dados no relato das tesremunhas, que poderiam ter interessado aos educadores e auxiliá-los no seu trabalho, são deixados de lado ou não são suficientemente destacados.
As pessoas da área da educação que acompanharam as viagens filmadas da testemunha, fizeram também perguntas que não aparecem, em geral, nos testemunhos “comuns”. Na sequência do seu trabalho educativo sobre o tema da Shoá, estas pessoas sabiam levantar as questões que concernem aos alunos, e as quais, podemos dizer, estes teriam perguntado aos sobreviventes. Por isso, as pessoas em formação também debateram com os sobreviventes sobre as perguntas com significados educativos que se ocupam da identidade judia, e sobre as perguntas humanas-universais com amplos significados educativos e a longo prazo.

Neste sentido, os relatos de testemunho neste projecto permitem-nos conduzir os espectadores através de caminhos de conhecimento que conduzem a empatia, interiorização e vontade de aprender e estudar. O objectivo deste projecto é criar uma colecção de testemunhos que sejam apresentados no futuro perante alunos, professores, educadores não formais, exército e outros, sem ser pelos próprios sobreviventes. Nestes filmes tratamos de transmitir a voz dos sobreviventes também às gerações que nunca poderão escutá-los em primeira pessoa.

B) Pontos importantes para a observação e aprofundamento do significado do filme.

Para o professor:
Dado que se pode considerar que muitos dos alunos podem assimilar o filme, depois de o verem, sem realizar um posterior debate, apresentam-se ao professor duas possibilidades para o seu tratamento:
1) Dar orientações de observação de determinados temas/pontos mais importantes do filme, previamente seleccionados, que deverão orientar os alunos no momento da visualização e não realizar debate após a sua projecção.
2) Dar orientações de observação, desde que seja adequado, realizando, posteriormente, um debate (sempre que o docente conheça os alunos). Este deve formular-se tendo em conta o aprofundamento dos temas que foram focados nas orientações de observação, associados a outros significados que surgiram durante a visualização e a outras mensagens que daí se tenham retirado.

A observação e debate do filme destinam-se a alunos do ensino secundário.

Debate do filme de Ovadia Baruch – “Que a tua lembrança seja amor”

Mensagem:

  • “Faz sessenta e cinco anos que me libertei de Auschwitz, e não consigo libertar-me,não consigo libertar-me destes vagões que aqui vêem”
  • “Ouve Israel,O Senhor é o nosso Deus, O Senhor é um. Eu saí deste inferno E vim pelos meus meios,com o meu dinheiro, para visitar Mauthausen, ao fim de sessenta e dois anos.”
  • “Venci os Nazis,constitui uma família, libertei-me de Auschwitz,vi o fim de Hitler.”
  • “Eu prometi em Auschwitz que tinha de sair daqui A promessa continua.Sair daqui, contar ao mundo o que se passou neste inferno. Só contar,porque nós costumávamos dizer uns aos outros: “Mantém-te vivo, para contar lá fora, o que se passou neste mundo.”

O filme divide-se em três períodos:

O Mundo antes da Shoá:
Motivos condutores em Salónica: Solidariedade, calor humano, tradição, simplicidade.

Exemplos:

  • “Eu vivia no Bairro Barão Hirsch, era um bairro muito grande, com aproximadamente três mil habitantes, e todos se conheciam.”
  • “Lembro-me das famílias, aos sábados de manhã, costumavam entar-se na rua,comendo pevides,pastéis, os pais voltavam da sinagoga, cada um fazia bolinhos, ”pastelicos”, ovos ozidos, bebiam um copinho de anis”
  • “O Barão Hirsch era todo de barracas.Cada família tinha uma barraca,segundo o tamanho da família. Na minha família éramos seis irmãs, eu, o rapaz,o pai e a mãe.Tínhamos dois quartos, apenas camas.Dormíamos todos juntos.Quanta alegria de viver!”
  • “A maioria dos judeus de Salónica dedicavam-se ao comércio e transporte, e pequenas indústrias, seam estivadores no porto, operários nos caminhos de ferro, e funcionários da alfândega”
  • “Aqui em Salónica havia quarenta e nove sinagogas.Só ficou uma.”
  • “Ouvimos que os alemães tinham declarado guerra á Polónia a 1 de Setembro de 1939. Não pensámos que os alemães invadissem a Grécia.”

Em Salónica, “todos se conhecem uns aos outros. No sábado, de manhã, depois da sinagoga, sentávamo-nos cá fora e comíamos juntos”. (Ovos jaminados prato típico de Salónica)

Shoá:
Motivos condutores: Que significa Auschwitz para os judeus de Salónica?
Solidariedade entre os judeus de Salónica – Dilemas no campo

  1. O que significa Auschwitz para Ovadia?
    • “Dos quatrocentos que viemos de Birkenau para Auschwitz meteram-nos por este portão. Quando cheguei a este portão chamava-me Ovadia Baruch.Passei o portão,converti-me no número 109432”
  2. Motivo de humilhação e agressões: especialmente porque não entendiam o idioma que falavam.
  3. Solidariedade entre os prisioneiros de Salónica:
    - Ovadia foi castigado com 65 agressões porque roubou pão para os prisioneiros.
    • “Ovadia e o seu bom amigo Moshé Cabeli, roubaram durante várias noites barris de sopa para os prisioneiros da sua secção. Ovadia foi apanhado e castigado com sessenta chicotadas”
    - Ovadia, que estava destinado às câmaras de gás, salvou-se, graças a um amigo que era responsável por anotar os prisioneiros que trabalhavam na fábrica. Este amigo também era de Salónica.
    • “Chegámos a Auschwitz, Um amigo meu, que tinha um posto importante, Jacob Maestro,foi, tirou os nossos documentos, viu que não tinha lá as profissões, e meteu uma profissão a cada um. E a mim anotou que eu era “Schloser mechaniker”, serralheiro mecânico, e disse-me: “amanhã de manhã vais trabalhar na “Union”.
    Os judeus de Salónica tinham um destino comum. Por um lado, o idioma, por outro, mantinha a solidariedade. Não era casual. Eram solidários antes da Shoá (como relata Ovadia), tendo continuado a manter e concretizar o valor da solidariedade, durante a Shoá.
  4. História de Amor em Auschwitz: contrasta com a desumanização. Uma realidade que relaciona duas pessoas num mundo que se desmorona.
    • “Só queria ver a Aliza. Mas ela era tão linda, que fiquei louco por ela..”
  5. Dilemas dos médicos judeus nos campos de concentração, num mundo onde não se escolhe.

Voltar a viver:
Os significados da vida com sentimentos humanos:
- (Valor) Ovadia está decidido a casar-se com Aliza, apesar de saber que ela poderia não ter filhos.
- A capacidade de valorizar a vida e fazer perguntas. O compromisso. O Amor para além dos riscos.

  • “Não sei porque fui escolhido,havia rabinos, havia professores. Não sei que sorte foi a minha que sobrevivi. Porque é que este rabino não pode sobreviver?”

Perguntas par um possível debate: (no caso de poder realizar-se)

  • Ovadia continuou a ser um número?
  • Que perguntas ficaram sem resposta?
  • Que outros significados surgiram a partir das orientações lidas?
  • Que outras mensagens foram transmitidas pelo filme?