La Escuela Internacional para el Estudio del Holocausto

Uma memória europeia assimétrica

Esther Mucznik


Quem for a Praga e visitar o antigo bairro judaico não consegue ignorar a lenda do Golem. Corria o ano de 1580 e avolumavam-se as ameaças de um novo pogrom contra os judeus de Praga. Inquietos, estes suplicavam e pressionavam o grande rabino de Praga, Rabi Yehudá Loew, para que fizesse alguma coisa que impedisse o massacre. Conta a lenda que, então, o Rabi dá “vida” – mas não a fala - a uma criatura feita da lama do rio Vltava trazida até ele pela corrente humana dos judeus de Praga. Essa criatura é um golem, nome que no Talmude significa um estado preliminar à criação de Adão e, na Cabala, uma matéria bruta sem forma nem contornos. Sem vontade própria, e obedecendo exclusivamente ao seu criador, o Golem é colocado na sinagoga Altneuschul (Velha-Nova) e tem como única função defender os judeus de Praga. O que ele faz efectivamente, salvando-os por diversas vezes, até que a dada altura, numa noite de Sábado, a criatura escapa ao controlo do seu criador e destrói tudo à sua volta, obrigando o rabi a remetê-lo ao seu estado original de lama, areia e pó... A lenda não acaba aqui: reduzido a pó, o Golem ainda hoje se esconde no sótão da sinagoga à espera que um novo mestre o traga à vida.
Na verdade, o mito do Golem é apenas uma outra versão da universal e indestrutível esperança messiânica de um salvador milagroso. Mas tal como sucede com os mitos, a poeira do Golem não salvou os judeus checos durante a Segunda Guerra Mundial. Dos cerca de 120 mil judeus que viviam no que é hoje a República Checa, sobreviveram 14 mil – hoje são pouco mais de seis mil. A grande maioria foi deportada para Terezin – o campo “modelo” e a maior mistificação do Holocausto – e em seguida para Auschwitz. Ao longo da guerra, os nazis apropriaram-se de numerosos objectos da cultura religiosa das comunidades judaicas da Boémia e Morávia com a intenção de os exibir num projectado “Museu Central da Extinta Raça Judaica”. Grande parte foi recuperada no pós-guerra e está hoje exposta no Museu Judaico de Praga, mas a vida que lhe deu origem foi apagada para sempre.
Andar em Praga, em Viena e Budapeste, tal como o fizemos neste verão em mais um “seminário sobre rodas” organizado pela Associação Memória e Ensino do Holocausto, é ver um mundo extinto, hoje transformado em museu. O que resta da Praga de Kafka e Max Brod, da Viena de Freud, Schnitzler ou Arnold Schönberg, da Budapeste de Imre Amos e Arthur Koestler? Os maravilhosos imóveis de arte nova e uma cultura brilhante hoje petrificada em memoriais, museus e espectáculo.
Os povos da Europa central têm um longo historial de sofrimento. Na República Checa três memoriais simbolizam esse sofrimento: Lídice, a aldeia arrasada e os seus habitantes deportados e executados pelos nazis, em 1942, em resposta ao assassinato pela resistência checa de Reinhardt Heidrich, na época alto-representante do governo alemão para a Boémia e Morávia; Terezin, símbolo da perseguição, repressão e deportação judaica; e o memorial de Jan Palach, o jovem que em 1969 se imolou pelo fogo em protesto contra os tanques soviéticos que esmagaram a “Primavera de Praga”. Três memoriais, três símbolos de um sofrimento que se eternizou ao longo de cinco décadas.
A Hungria, país que se aliou à Alemanha na esperança de recuperar os territórios perdidos com o desmoronar do império austro-húngaro, também não escapou à ocupação. Em Budapeste, a “Casa do Terror” é o testemunho desse período trágico. Hoje transformado num museu que conta a história da violência das duas ditaduras que ocuparam a Hungria entre 1944 e 1989, o imóvel foi, no período nazi, o quartel-general do partido fascista húngaro da “Cruz Flechada” e depois do final da guerra, sede da temível ÁVO, a polícia política soviética que só entre 1945 e 1950, levou 60 mil pessoas a julgamento, das quais 10 mil foram presas e 189 executadas.
Budapeste tem, espalhadas pela cidade, esculturas urbanas que são pinceladas de memória por vezes mais eloquentes do que os grandes museus. O mais impressionante é sem dúvida o dos "Sapatos sobre a margem do Danúbio". Constituído por sessenta pares de sapatos de ferro criados a partir de modelos dos anos 40, o memorial lembra o assassinato a tiro pelos nazis húngaros de vinte mil judeus, directamente para o rio. Não muito longe, no antigo bairro judaico ergue-se a segunda maior sinagoga do mundo, a sinagoga Dohany. Símbolo da emancipação judaica no século XIX, ela exprime a confiança na possibilidade de integração na sociedade húngara. Mas olhando com os olhos de hoje, a belíssima sinagoga é apenas um símbolo patético. Com a sua rica decoração e arquitectura interior a imitar uma igreja, ela é testemunha da tentativa desesperada de assimilação dos judeus húngaros, uma súplica à sua aceitação pela sociedade húngara. Sabemos a resposta: seiscentos mil judeus húngaros assassinados nas câmaras de gás. Junto à sinagoga, no actual museu judaico, uma discreta placa informa que ali nasceu Theodor Herzl, o homem que antes de todos entendeu o fracasso da assimilação… Praga, Budapeste e Viena, cidades onde outrora floresceu uma brilhante cultura judaica e universal, hoje praticamente desaparecida, terras que procuram sarar as feridas de uma dupla ocupação, terras onde a memória oscila entre a vitimização e a culpa … A memória europeia não é simétrica no centro e no ocidente europeu. Parafraseando Judt, “A União Europeia será talvez uma resposta à história, mas nunca poderá substitui-la”.